A Casa da Mariquinhas

 

A 'Casa da Mariquinhas'  foi o maior, de todos os êxitos de Alfredo Marceneiro. Com versos da autoria do grande jornalista e poeta Silva Tavares,  é considerado o expoente máximo do seu reportório.

 

Todos os que escutavam estes versos quando cantados por Marceneiro, eram unânimes em afirmar que "viam imagens reais".

 

Alfredo Marceneiro querendo mostrar a sua arte de marceneiro fez uma casa em madeira à escala de 1/10, colocando no seu interior tudo o que o poeta descreve no poema, as janelas com tabuinhas, no vão de cada janela sobre coluna uma jarra, tem na sala uma guitarra, o cofre forte, o candeeiro a petróleo, os quadros de gosto magano,  todos os móveis são feitos em entalhe sem um único prego. A "Casa da Mariquinhas"  encontra-se em exposição no Museu do Fado.

Esta obra é propriedade da família e encontra-se em exposição no Museu do Fado

O tema "A Casa da Mariquinhas" teve tal êxito que levou, outros poetas a se basearem nele, compondo outras versões igualmente cantadas por Marceneiro, Hermínia e Amália.

 

A Casa da Mariquinhas
Letra: Silva Tavares

Musica: Alfredo Marceneiro
 

É numa rua bizarra
A casa da Mariquinhas
Tem na sala uma guitarra
E janelas com tabuinhas

 

Vive com muitas amigas
Aquela de quem vos falo
E não há maior regalo
Que a vida de raparigas
É doida pelas cantigas
Como no campo a cigarra
Se canta o fado à guitarra
De comovida até chora
A casa alegre onde mora
É numa rua bizarra


Para se tornar notada
Usa coisas esquisitas
Muitas rendas, muitas fitas
Lenços de cor variada.
Pretendida, desejada
Altiva como as rainhas
Ri das muitas, coitadinhas
Que a censuram rudemente
Por verem cheia de gente
A casa da Mariquinhas


É de aparência singela
Mas muito mal mobilada
E no fundo não vale nada
O tudo da casa dela
No vão de cada janela
Sobre coluna, uma jarra
Colchas de chita com barra
Quadros de gosto magano
Em vez de ter um piano
Tem na sala uma guitarra


P'ra guardar o parco espólio
Um cofre forte comprou
E como o gaz acabou
Ilumina-se a petróleo.
Limpa as mobílias com óleo
De amêndoa doce e mesquinhas
Passam defronte as vizinhas
P'ra ver o que lá se passa
Mas ela tem por pirraça
Janelas com tabuinhas

Alfredo Marceneiro querendo mostrar a sua arte de marceneiro fez uma casa em madeira à escala de 1/10, colocando no seu interior tudo o que o poeta descreve no poema, as janelas com tabuinhas, no vão de cada janela sobre coluna uma jarra, tem na sala uma guitarra, o cofre forte, o candeeiro a petróleo, todos os móveis são feitos em entalhe sem um único prego.

A Casa da Mariquinhas encontra-se em exposição no

'Museu do Fado'

 

 

O Leilão da Mariquinhas
Letra: João Linhares Barbosa

 

Ninguém sabe dizer nada
Da famosa Mariquinhas
A casa foi leiloada
Venderam-lhe as tabuinhas

 

Ainda fresca e com gagé
Encontrei na Mouraria
A antiga Rosa Maria
E o Chico do Cachené
Fui-lhes falar, já se vê
E perguntei-lhes, de entrada
P’la Mariquinhas coitada?
Respondeu-me o Chico: e vê-la
Tenho querido saber dela
Ninguém sabe dizer nada.

 

E as outras suas amigas?
A Clotilde, a Júlia, a Alda
A Inês, a Berta e Mafalda?
E as outras mais raparigas?
Aprendiam-lhe as cantigas
As mais ternas, coitadinhas
Formosas como andorinhas
Olhos e peitos em brasa
Que pena tenho da casa
Da formosa mariquinhas

 

Então o Chico apertado
Com perguntas, explicou-se
A vizinhança zangou-se
Fez um abaixo assinado,
Diziam que havia fado
Ali até madrugada
E a pobre foi intimada,
A sair, foi posta fora
E por more duma penhora
A casa foi leiloada.

 

O Chico foi ao leilão
Arrematou a guitarra
O espelho a colcha com barra
O cofre forte e o fogão,
Como não houve gambão
Porque eram coisas mesquinhas
Trouxe um par de chinelinhas
O alvará e as bambinelas
E até das próprias janelas
Venderam-lhe as tabuinhas.

No Programa da RTP 'Marceneiro é só fado' em (1969)

Alfredo Marceneiro canta 'O Leilão da Mariquinhas'
Letra de Linhares Barbosa

 

 

Depois do Leilão
Letra: João Linhares Barbosa

 

 

A casa da Mariquinhas
Já nada tem que a destaque
As discretas tabuínhas
São dum velho bricabraque

 

Em prol da urbanização
E d´outras leis citadinas
Inventaram-se as ruínas,
Impôs-se a demolição.
Lá foram no turbilhão
Muitas relíquias velhinhas,
Porém, as fúrias daninhas
Das inovações em suma,
Por "salvação", ficou uma:
"A casa da Mariquinhas"

 

Mas, outra fisionomia
Lhe deram; não tem guitarras,
Lá dentro não há cigarras
Cantando a sua alegria.
À porta por ironia,
Há um porteiro, um basbaque,
A olhar por um "Cadillac"
da pessoa que lá mora...
Das coisas velhas d´outrora
Já nada tem que a destaque.

 

No célebre primeiro andar
Que a Mariquinhas deixou
Nem uma placa ficou
Do seu nome a assinalar.
Abertas de par em par
As janelas, são mesquinhas,
Até as próprias vizinhas
Confessam com amargor
Que falavam mais de amor
As discretas tabuínhas.

 

A Ti´Ana, a capelista,
Triste, queixa-se das vendas,
Já não tem saída as rendas
Nem os xailes à fadista.
O Perdigão penhorista,
Um velho de côco e fraque
Diz que tudo esteve a saque,
Que só ´spartilhos e ligas
Porque eram coisas antigas
São dum velho bricabraque

 

 

Já sabem da Mariquinhas
Letra: Carlos Conde

 

Mais fresca, alegre e bizarra
Encontrei a Mariquinhas
Já resgatou a guitarra
Mas não quer as tabuinhas...

 

Via-a, no Cais do Sodré
Tinha vindo de Cacilhas.
Ela, a Rosa, e o Maravilhas
E o Chico do Cachené...
Cheia do mesmo gagé
E alegre por vir da farra.
Trajava saia com barra
E blusa com muitos folhos.
Mais fresca alegre e bizarra!

 

Falei-lhe. Contou-me então
Que tinha andado à lambada
E que fora condenada
A seis meses de prisão...
Mal saiu, foi ao Tacão,
Alugou quarto na Aninhas
E p’ra moer as vizinhas
Foi com o Chico às ginjas
Pois na volta por sinal
Encontrei a Mariquinhas

 

A Rosa pôs-se ao dispor
P’ra lhe emprestar o dinheiro,
E o Chico foi o primeiro
A ficar por fiador!
O Maravilhas quis pôr
Na questão a sua garra
Com mais obra e menos parra
Pediu ao Chico a cautela,
E a Mariquinhas com ela,
Já resgatou a guitarra.

 

Pensa-se então para já
Reunir a fadistagem
Numa festa de homenagem
A que ninguém faltará
O Marceneiro vai lá,
Já o disse sem picuínhas,
As rendas, as chinelinhas,
As fitas e o cortinado
Tudo ela quer, de bom grado,
Mas não quer as tabuinhas!...

 

 

O Testamento da Mariquinhas
Letra: Dr. Lopes Víctor

 

A Mariquinhas p´rós céus
Partiu sem as tamanquinhas
Deixou a guitarra a Deus
E à moirama as tabuinhas

 

Caiu chuva, fortemente,
Num beco da Mouraria
D´onde o Sol, por ironia,
Também quiz estar ausente.
Dos lábios de tanta gente
Crente, e mesmo os ateus,
Encomendaram a Deus
A alma da pecadora
E lá foi, naquela hora,
A Mariquinhas p´rós céus

 

Fazer milagre, quiz Deus,
Em trazer ao funeral
Um escol fenomenal
D´alguns nobres e plebeus.
O Conde; o Roque; o Mateus;
O Custódia e o Ginguinhas,
Choraram a Mariquinhas
Essa figura lendária,
Que à procura da Cesária
Partiu sem as tamanquinhas

 

E a Cigarra cantadeira
Não fará mais gorgeios,
Gorgeando os seu anseios
No fado à sua maneira.
Na Rua da Amendoeira
Andam jám os fariseus
A pregar, feitos judeus,
Com fingido sentimento
Que ela, no testamento,
Deixou a guitarra a Deus

 

No cofre, já tão falado,
Ficaram as rendas finas,
Muitos laços, as cortinas,
E um lençol todo bordado
E tudo foi averbado,
P´ra deixar às mais velhinhas,
No fado velhas rainhas
Que lá viram exarado:
Eu deixo o meu chaile ao fado
E à moirama as tabuinhas.