Aposentação

 

 

 

Sendo Alfredo Marceneiro reconhecido e admirado tanto pelo povo anónimo como pelos intelectuais das Letras  e das artes, embora praticamente nunca tenha saído de Lisboa, não foi antes do 25 de Abril de 1974 alvo de qualquer homenagem ou referência pelas autoridades políticas de então. O  Secretariado Nacional da Informação (S.N.I.) sempre o ignorou mas também nunca o incomodou.

 

Na altura da sua (simbólica) reforma em 1963, foi-lhe concedido o complemento à pensão de "mérito artístico", por proposta do Sindicato de Artistas de Variedades. Como calculam uma insignificante quantia.

 

Um grupo de amigos e admiradores, quando este se reforma, decidem fazer-lhe uma Homenagem a 25 de Maio de 1963, no Teatro S. Luiz:

 

A MADRUGADA DO FADO
Consagração e Despedida do Grande Artista
ALFREDO DUARTE MARCENEIRO

 

Que o Fado está na História do nosso Povo já ninguém o nega e Alfredo Marceneiro ficará para sempre a esta ligado, como previu Norberto de Araújo, quando sobre ele escreveu:


"O FADO TEM TIDO MUITAS MULHERES, ALGUMAS, MESMO, HEROÍNAS DA CANÇÃO DOLENTE E BONITA. HOMENS - SÒ UM:
ALFREDO MARCENEIRO. LIGOU O PASSADO AO PRESENTE, E COM A SUA ALMA ERRANTE, LUMINOSA E INGÉNUA, COLOCOU O FADO NUM PLANO DE "AUTO DO POVO", QUE FICARÁ NA HISTÓRIA DO NOSSO TEMPO."

 

Nesta Madrugada de Fado, que começou a partir da meia-noite e que durou até ao amanhecer, colaboraram muitos artistas seus amigos e admiradores, do fado e do teatro.

 

Guitarristas:

Raul Nery, Fontes Rocha, Francisco Carvalhinho, Acácio Gomes, Pais da Silva, João Bagão, e Dr. António Toscano;

 

Violas:

Armando Machado, Joel Pina, Júlio Gomes, Joaquim do Vale, Vitor Ramos, José Inácio, Fernando Alvim, João Gomes, Miguel Ramos;

 

Cantaram fados:

Adelina Ramos, Alberto Costa, Alfredo Duarte Júnior, António dos Santos,, Argentina Santos, António Melo Correia, Berta Cardoso, Carlos Ramos, Deolinda Rodrigues, Estela Alves, Fernanda Maria, Fernanda Peres, Fernando Farinha, Filipe Pinto, Flora Pereira, Hermínia Silva, Isabel de Oliveira, João Ferreria Rosa, Lucília do Carmo, Manuel Fernandes, Maria Albertina, Maria Amorim, Maria de Lourdes Machado, Maria Teresa de Noronha, Max, Mercês da Cunha Rêgo, Natércia da Conceição, Dr. Paradela de Oliveira Paula Valpassos, Sérgio, Teresa Tarouca, Vicente da Câmara e o homenageado ALFREDO MARCENEIRO;


Actores:

Henrique Santana, José de Castro, Humberto Madeira, Paulo Renato, Raúl Solnado, Varela Silva.

 

Com música de Frederico Valério e letra de Guilherme Pereira da Rosa, é-lhe dedicado o poema que foi cantado por Fernanda Maria:


ESTE NOSSO FADO

O Fado
Fado nascido em Lisboa,
É voz de pena que soa,
Mágoa do peito vem...
O Fado
É Bairro velho que chora
Alfama que se enamora
E conta o amor que tem...
O Fado
É canto de Feiticeiro;
É Alfredo Marceneiro;
É um dom, uma expressão...
E é Fado
Guitarra que nos murmura
Tudo aquilo que perdura
Bem dentro do coração...
Ao Fado
Lisboa diz o que sente,
Vai nele a alma da gente,
Pois é esse o seu condão!

O Fado
Fado que invade a cidade,
É nostalgia, saudade,
Mal e Bem, Sorte e Azar...
O Fado
É rumo de caravelas...
E somos nós e são elas
Que andamos a namorar...


O Fado
É modo da nossa gente;
O passado e o presente,
O porvir - esse também...
Pois Fado
É este jeito, esta briga,
De chorar numa cantiga
Um amor, tudo - e ninguém...
E é Fado
Aquele encanto profundo
Que vai daqui pelo mundo
E que ao mundo soa bem!


O poeta Silva Tavares, também em sua homenagem, relembrando o êxito que teve o seu poema cantado por Marceneiro "A Casa da Mariquinhas", dedica-lhe um fado com o título:


50 ANOS DEPOIS

A casa da Mariquinhas
perdeu metade da graça,
- tiraram-lhe as tabuinhas
e, da guitarra, nem raça.

O fado, canção dorida,
já lá não tem "cabidela",
e já nenhuma atrevida
chama por nós da janela.

Grotescos, hirtos, parranos,
nas paredes do salão,
em vez de quadros maganos
há retratos a carvão.


Vive lá hoje um casal
e ela, a mulher, é bem bela!
Mas ele é que, por seu mal,
podia ser avô dela.

Vistosa, muito garrida,
sem domínio nem conselho,
passa metade da vida
entre a janela e o espelho.

E há razões para temer
ao que rosnam as vizinhas,
que a casa inda torna a ser
A casa da Mariquinhas

 

Felizmente para todos os seus seguidores, amigos e admiradores, não foi uma despedida, ainda, durante quase duas décadas continuou a deliciar-nos, cantando os seus fados com aquele estilo inesquecível. Muitos dos seus amigos diziam com carinho "Ti Alfredo" é como o Vinho do Porto, quanto mais velho melhor.

 

Até ao roçar dos noventa anos de idade, Alfredo Marceneiro manteve-se uma figura da noite lisboeta.

 

Quando o sol desaparecia no horizonte e os candeeiros já iluminavam a cidade, Alfredo Marceneiro saía tranquilamente de sua casa, envolvendo-se na noite, na magia da noite que envolve Lisboa como um véu de mistério. Sim, era na noite que ele aparecia. Era na noite que ele vivia o mundo onde ganhou fama e glória. A sua ronda nocturna, de todos os dias, pelas casas típicas, era talvez uma necessidade de se sentir estimado e acarinhado. Quando o ambiente era propício e havia muitas insistências, cantava. O Fado era, afinal, a sua vida inteira.

 

Com o despontar dos primeiros alvores da madrugada, Marceneiro abandonava os retiros de fado e regressava, satisfeito, para junto da sua querida "Tia Judite"...

 

Além dos netos Vítor e Valdemar que o acompanhavam assiduamente, muitos dos seus amigos o iam buscar a casa, transformando-se em parceiros das suas longas deambulações nocturnas, principalmente a partir dos seus setenta anos. Destes destaca-se o seu amigo, José Pargana que foi um exímio caricaturista como se pode verificar nas reproduções aqui impressas.
 

Também, durante os últimos anos da sua vida, foi seu grande companheiro o fotógrafo Leonel Lourenço. Grande artista na sua arte, algumas das fotos de Marceneiro aqui reproduzidas são da sua autoria. Para o "Ti Alfredo" e como para a "Ti Judite", o Leonel Lourenço era como um filho.

 

Também o jovem José Pracana, por quem "Ti Alfredo" nutre muito carinho, recíproco, o vai buscar a casa para o levar para o "Arreda" em Cascais, deliciando-se em ouvi-lo cantar e em especial com as suas análises e ditos oportunos. José Pracana, que canta e também toca guitarra, num estilo em que se nota influências do grande guitarrista José Nunes, fazia questão em acompanhá-lo à guitarra e quando Marceneiro estava renitente para cantar, ele conseguia dar-lhe a "volta". "Ti Alfredo" dizia muitas vezes " o Pracana é como se fosse meu neto".

 

O José Pracana imita-o muito bem a cantar, quer nos requebres de voz, quer nos gestos e Alfredo Marceneiro, que não gostava nada que o imitassem na sua presença, no caso do Pracana, ele próprio muitas vezes lhe solicitava que o fizesse. Era então vê-lo rir com prazer, pois sentia que tal lhe era dedicado como homenagem e, acima de tudo, feito com muito carinho.

 

De entre os seus muitos amigos, um há que, apesar de não ser um "companheiro assíduo de fadistices", sempre teve uma presença muito especial na sua vida. Refiro-me a Julio Vidigal Amaro "o Juleca", decerto o seu maior amigo, ficando esta biografia incompleta se o seu nome não fosse referido.

 

Já com oitenta e tal anos de idade, mesmo que não apareça ninguém a buscá-lo para a sua ronda nocturna, Alfredo não se coíbe de sair, pois, mal põe o pé fora de casa, é certo que o primeiro táxi que passa livre, e mesmo que ele não lhe faça qualquer sinal para parar, o motorista com a alegria e gosto sentido, pára o carro e diz: "Boa-Noite "Ti Alfredo". Onde é que quer que o leve hoje?"

"Oh! Meu querido filho, ainda bem que apareceste, leva-me ao Bairro-Alto", responde ele invariavelmente.

 

De madrugada a cena era a mesma. Era ver qual o taxista que encontrava o "Ti Alfredo" para o trazer a casa, sabendo de antemão que tinha de estacionar o carro e ir lá a casa comer uma "canjinha", deixada pronta pela "Ti Judite" para quando ele chegasse.

 

Muitos motoristas de táxi, principalmente os do turno da noite, foram especialmente importantes para a sua vivência nocturna.

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